
João Belchior Viegas foi um homem de grande cultura, que pautou toda a sua vida por uma enorme discrição, sentido de responsabilidade e pelo desejo de dar o seu melhor contributo para o desenvolvimento cultural e artístico do país e dos nossos valores.
A sua participação no grupo literário “Távola Redonda”, a sua carreira como agente artístico de Amália Rodrigues – a mais importante cantora do século XX e da alma portuguesa – ou a sua obra como tradutor de muitos clássicos da literatura mundial, são bem exemplo da sua estatura intelectual, tal como a sua atitude de elevado sentido de participação cívica, ao dar o seu melhor contributo à Biblioteca Municipal e ao Clube de Leitura.
João Belchior Viegas
(06/11/1926 – 12/11/2004)
Filho de famílias que viviam da cortiça, que a crise dos anos 20 obriga a deslocarem os seus negócios para Lisboa, João José Belchior Viegas nasce nesta cidade a 6 de Novembro de 1926, tendo sido registado o seu nascimento a 12 do mesmo mês.
S. Brás de Alportel seria sempre o espaço da ternura e da liberdade - as brincadeiras de infância; o refúgio da vida agitada da capital e, finalmente, após retirar-se das suas múltiplas actividades profissionais, o recomeçar a partir das raízes algarvias.
Leitor compulsivo, porém selectivo, com padrões de exigência estética muito rigorosos, ‘devorava’ jornais, relia os clássicos, atirava-se com curiosidade insaciável às obras dos novos e promissores escritores e aventurava-se no mundo literário dos ‘blogues’.
Melómano, cinéfilo e contador de histórias, nas sessões do Clube de Leitura e nas suas regulares visitas de apoio à Biblioteca Municipal, todos aprendíamos sempre algo novo relativo a uma nova ou velha edição literária, à deslumbrante imagem de um filme, às qualidades vocais, o ritmo ou simplesmente a história de vida do autor de uma composição musical.
Cativados pela sua fluência e inteligentíssimo humor, escutávamos deliciados as histórias que nasciam de episódios do quotidiano, dos livros lidos e dos filmes revisitados.
Aos 77 anos era o nosso mais jovem e sábio Amigo. Discreto, muito discreto, intenso e culto.
Dinamizou e orientou o Clube de Leitura da Biblioteca Municipal desde a sua criação.
Porém, muitos dos utilizadores da biblioteca que com ele se cruzavam desconheciam que estavam perante o tradutor de dezenas de autores contemporâneos como Steinbeck, Graham Greene, Erskine Caldwell ou Guy de Maupassant; que ali estava um impulsionador do grupo literário da Távola Redonda (ombro a ombro com David Mourão-Ferreira, Couto Viana, Fernanda Botelho...), um dos directores da Valentim de Carvalho, que acompanhou a edição musical em Portugal nos últimos 50 anos, e o ‘estratega’ da carreira de Amália Rodrigues.
A Biblioteca Municipal herdou grande parte da sua biblioteca pessoal com muitas primeiras edições autografadas, mas os bens mais valiosos foram a amizade, o exemplo de vida e a paixão desmesurada pelo Belo e pelo canto encerrado em cada palavra.
Quando nos despedimos no dia 28 de Setembro, por sinal um belo dia dourado pelo sol de Outono, dissemos: Até sempre, querido Amigo!
A Biblioteca Municipal Dr. Manuel Francisco do Estanco Louro