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Hidroavião Santa Cruz

SANTA CRUZ

Hidroavião

Réplica do hidroavião Fairey IIID, pilotado por Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que chegou ao Rio de Janeiro, no Brasil, em 17 de junho de 1922 na primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Comprimento: 10,92 m / Envergadura: 14,05 m / Altura: 3,70 metros

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  • O Monumento

    Monumento de autoria de Carlos de Oliveira Correia, homenageando a 1.ª Travessia Aérea do Atlântico Sul realizada por Sacadura Cabral (piloto) e Gago Coutinho (navegador), de 30 de março a 17 de junho de 1922, num total de 8364 km, em 62 horas e 26 minutos de voo, com uma velocidade média de 134km/hora.

  • O Autor

    Carlos de Oliveira CorreiaCarlos de Oliveira Correia é engenheiro agrónomo e arquiteto paisagista, com uma vasta experiência na produção e gestão florestal… mas a arte é a sua grande paixão e desde há uma década tem vindo a entregar-se à execução de obras de arte originais que marcam os espaços e os lugares. Exemplo disso é o “cavaleiro” patente na Rotunda de entrada na localidade de Castro Marim ou o original “polvo” que decora um das rotundas da Cidade de Quarteira. A mais ambiciosa das suas obras, com maior envergadura e muito significado veio para São Brás de Alportel e evoca a memória da grande travessia que ligou Portugal ao Brasil, na primeira ligação aérea do Atlântico Sul – a instalação “Santa Cruz”, réplica do hidroavião que alcançou o Rio de Janeiro pilotado por Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

  • A Travessia

    Nesta viagem foram usados 3 hidroaviões Fairey III D, pertencentes à Aviação Naval, o último dos quais, o “Santa Cruz”, está representado neste monumento.

    A Travessia ligou Lisboa (Portugal), Las Palmas (Canárias), S. Vicente e S. Tiago (Cabo Verde), e os Penedos de S. Pedro e S. Paulo, Fernando de Noronha, Recife, Bahía, Porto Seguro, Vitória, e Rio de Janeiro (Brasil).

    Sacadura Cabral foi o único piloto durante toda a viagem. As duas etapas mais longas duraram, cada uma, cerca de 11 horas.

    Gago Coutinho concebeu um método de navegação astronómica de precisão pioneiro, e os respetivos aparelhos: um sextante com um nível artificial, e um corretor de rumos. Foram ainda elaborados mapas especiais, e realizados (antes da viagem) cálculos astronómicos pré-preparados para pontos específicos de cada etapa.

    Foi esta confiança nos métodos astronómicos de Gago Coutinho que lhes permitiu encontrar, no meio do mar, os Penedos de S. Pedro e S. Paulo (pequenos rochedos com uma extensão de 250 m), após uma etapa de 1652 km, sobre o Atlântico, sem qualquer ajuda exterior. Nenhum dos aviões estava equipado com rádio.

     

    percurso 1ª travessia aérea Atlântico Sul

    A Travessia de 1922 ligou 4 países, 3 continentes e 2 hemisférios, e coincidiu com o 1º centenário da Independência do Brasil.

    A UNESCO inscreveu o Relatório da 1ª Travessia Aérea do Atlântico Sul, no Registo da Memória do Mundo, a 27 de Julho de 2011, que, a partir desta data, é considerado Património da Humanidade.

    Texto: João Moura Ferreira – Associação Lusitânia 100

     

     

    … A grande viagem havia começado no dia 30 de março de 1922, quando Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiram de Lisboa a bordo de um hidroavião monomotor Fairey III-D modificado, ao qual foi dado o nome de Lusitânia. Na corajosa aventura Sacadura Cabral era o piloto e Gago Coutinho o navegador, que criou um método completamente novo de navegação aeronáutica astronómica de precisão. Desenvolveu também um modelo de sextante com horizonte artificial para a medição da altura dos astros e inventou ainda o corretor de rumos. Este método de navegação astronómica revolucionou para sempre a navegação aérea.

     

    A bordo do Lusitânia, realizaram nas Ilhas Canárias e no arquipélago de Cabo Verde, onde voaram até aos Penedos de São Pedro e de São Paulo, em pleno Atlântico Sul. O mar revolto causou danos na aeronave durante a amaragem. A viagem foi depois retomada a partir da Ilha de Fernando de Noronha, a bordo de um segundo hidroavião, enviado pelo Governo Português.

    Mas uma nova fatalidade abateu-se sobre estes valentes aeronautas: uma falha no motor obrigou-os amarar de emergência e deixou-os náufragos, durante horas, até serem resgatados por um cargueiro inglês.

    Reconduzidos a Fernando de Noronha, só a 5 de junho, retomaram viagem a bordo de um novo Fairey III-D (n.° 17), transportado de Portugal e batizado pela esposa do então Presidente do Brasil, Epitácio Pessoa, como Santa Cruz. O hidroavião levantou então voo rumo a Recife, fazendo escalas em Salvador da Bahia, Porto Seguro, Vitória e alcançou a baia de Guanabara, no Rio de Janeiro, a 17 de junho de 1922, onde foram recebidos com enormes manifestações de júbilo popular.

    Em 1922 comemorou-se também no Brasil o primeiro centenário da sua independência. Esta comemoração foi também uma das razões que motivou esta viagem.

  • A época

    SC e GC antes da partida, com o Lusitânia

    Estávamos no início da década de 1920…

    Em São Brás de Alportel viviam-se anos agitados. A atividade corticeira era então um dos motores económicos do Concelho, embora já com evidentes sinais de declínio. Sinais preocupantes foram dados pelas constantes reclamações dos fabricantes que se sentiam revoltados com os elevados valores das taxas e impostos cobrados pelo fisco[1].

    Em maio de 1922 a Câmara Municipal anunciou a construção de um coreto para Banda de Música mas discutia então ainda a sua localização – se no Largo de São Sebastião ou se no “Terreiro” junto à Igreja Matriz . Nesta altura os jardins da Verbena não foram sequer considerados. 

    O isolamento do Concelho e as péssimas vias de comunicação eram apontadas por todos como a grande causa da estagnação e o maior impedimento do desenvolvimento da Terra. Por isso o poder político investe toda a sua energia na resolução deste problema.

    Nesta primavera de 1922, o Senado (parlamento nacional) aprovou um subsídio de 200 contos para a construção do Ramal de Caminho-de-ferro para Loulé e São Brás. O povo acreditou que finalmente, com a chegada do comboio, regressariam os tempos de prosperidade vividos algumas décadas atrás.

    Em outubro de 1922 surgiram os primeiros projetos para a futura Avenida que partindo do Largo de São Sebastião tomaria a direção Norte. Também a estrada São Brás para os Almargens recebeu por esta altura luz verde para arrancar: depois de feitos os estudos preliminares a Câmara Municipal ordena os processos de expropriações de algumas propriedades. Muitos sonhavam também com uma ligação rápida a Faro através de veículos elétricos.

    Portugal vivia tempos de desânimo, vendo murchar alguns dos ideais republicanos e tentando sarar as feridas da sua participação na I Grande Guerra. É neste contexto que, subitamente, em junho de 1922, o país é varrido por uma onda de entusiasmo que, do dia para noite fez esquecer todos os males: dois portugueses, Sacadura Cabral e Gago Coutinho, realizaram pela primeira vez na história, a travessia aérea do Atlântico Sul, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro, numa viagem que durou cerca de sessenta e duas horas de voo, distribuídas por setenta e nove dias, entre paragens, interrupções e avarias mecânicas.

    O país exultou. E São Brás de Alportel sentiu-se um lugar especial pois um dos heróis tinha as suas raízes familiares aqui.

    Texto: Emanuel Sancho – Museu do Traje de São Brás de Alportel

    [1] Atas da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, 5/3/1921, cit. Monumenta Blasiana, Afonso Cunha, 2012

  • As origens são-brasenses de Gago Coutinho

    O seu avô paterno, Manuel Viegas Gago Coutinho era natural de São Brás de Alportel foi livreiro em Faro e Cabo de Esquadra do Regimento de Artilharia de Faro.

    Segundo Gago Coutinho, o seu pai, José Viegas Gago Coutinho “era um homem de reduzida educação literária. Só a primária, mas conhecia escrita comercial, em que praticava (…) era homem alto, desempenado, bem branco”, oriundo de São Brás de Alportel, e sua mãe, Fortunata Maria Mendes Coutinho, “senhora pequena, morena, algarvia, filha de padeiros, e que devia ter ascendência moura, nada mais sei a não ser que um irmão dela era patrão de um cahique da costa e várias vezes o vi visitar a irmã em Belém”. [1]

    Muitos juraram e outros ainda hoje afirmam que o aviador e cientista é mesmo são-brasense de nascimento, levado ainda recém-nascido para Lisboa onde foi registado…

    A verdade é que a Câmara Municipal acompanhou o entusiasmo geral, realizando em 8 de maio de 1922 uma Sessão Solene[2] em honra dos aviadores. Foi convidado “todo o elemento oficial, escolas, colectividades e vários oradores”. À noite, realizou-se um cortejo cívico e o edifício dos Paços do Concelho esteve iluminado. À rua principal da vila foi dado o nome do “aeronauta” Gago Coutinho, que se mantém até hoje.

    No mês seguinte, a 18 de junho, é Virgínia Passos que, na sede do Município, recita uma elaborada peça de oratória, em honra dos “nautas”:

    Nesta hora de sublime grandesa para a nossa Pátria, nesta astral antemanhã de sonho, eis que a alma dum povo desperta enfim do profundo letargo em que jazia, e sentindo-se levado triunfalmente aos panoramas luminosos do infinito, de lá onde tudo é belo, onde tudo é puro, anda num frémito de patriótico entusiasmo, o feito heróico, o arrojo estremo dos dois sábios e ilustres aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral que no delírio patriótico do mundo culto, estão sendo coroados, neste imorredouro dia com os louros imperecíveis da Victória. (excerto)

      

    [1] Atas da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, 5/3/1921, cit. Monumenta Blasiana, Afonso Cunha, 2012

    [2] Citado por Rui Miguel da Costa Pinto, no livro “Gago Coutinho, o último aventureiro português”, página 22

    [3] Atas da Câmara Municipal de São Brás de Alportel, 8/5/1922, cit. Monumenta Blasiana, Doc. 320, Afonso Cunha, 2012