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Lendas e outras histórias

São Brás de Alportel, terra de Lendas e Mouras Encantadas

Lendas transcritas da Monografia “O Livro de Alportel”, de autoria do Prof. Dr. Manuel Francisco do Estanco Louro, editado em 1929.

  • O Monte do Trigo

    O «Monte do Trigo» fica entre o Juncais e as Fontainhas, no caminho de S. Brás para Querença, a cerca de 1 quilómetro para poente, da estrada de Faro a Beja.
    É um montículo que terá de cota, a partir da base, uns 6m e que medirá, em circunferência, uns 50 ou 40m .O morro é constituído por matérias vulcânicas que têm uma côr fortemente arroxeada. A consistência da rocha é pequena, porque a desagregação superficial é relativamente fácil, em pequenos grãos, muito leves, que o vento e a chuva logo arrastam para a base. Nas encostas do montículo, há numerosos dorsos e regatinhos, de dimensões variadas – como se a Natureza nos quizesse apresentar um magnífico exemplar de estudo da ortografia, uma miniatura de montanha gigantesca.
     
    Sobre o morro, nem o arbusto mais pobre consegue viver.
    Ali próximo, habitava, antigamente, um lavrador muito rico. Era este homem feroz, intratável; não dava nada aos pobres e era tão soberbo que, nem Deus – em quem, aliás, não
    acreditava – tinha qualquer temor.
    Ora, num belo ano, acolheu ele tanto trigo que teve de pôr num grande montão, ao pé da eira. Naquelas alturas, chegou-lhe à porta um pobrezinho a pedir-lhe qualquer coisa, pelo
    amor de Deus. O nosso mau lavrador, nem deu nada ao pobre e ainda por cima, irritou-se e blasfemou.
    Pois no outro dia, o moitão de trigo estava reduzido a terra para sempre estéril – o actual «monte de trigo».

    in, LOURO, 1996:347

  • As mouras encantadas e a cova da moura
    

    Também já nos referimos á existência deste lugar tão importante e tão pouco conhecido, sendo, aliás, bem digno disso. Cremos que é o único lugar do Alportel, onde a tradição, embora medrosa, deixou ainda ficar o medonho martírio dos encantamentos de mouros.
    Para uma ideia mais completa, transcrevo o que, em referência ao assunto, diz Ataíde de Oliveira:
    «Não obstante a carência quási completa de lendas de mouros encantados, na freguesia de S. Brás de Alportel, é certo que esta freguesia tem sítios que se assinalaram no tempo dos mouros, por factos históricos ou por denominações mouriscas, chegadas até hoje.
    Entre os sítios da 1.ª classe, mencionarei o do Desbarato, entre S. Brás e S.ta Catarina da Fonte do Bispo. Houve ali um forte combate entre os sarracenos e os cristãos e que um cronista, quási contemporâneo descreve da seguinte forma: (o autor transcreve o que também transcrevemos a pág. 54). Nas tradições dos sítios do Desbarato e limítrofes, não encontrei referências a êste combate.
    Há, na mesma frèguezia, um sítio denominado a Fonte do Mouro. Chamei a atenção de um ilustre cavalheiro para a lenda que corre nesta vila de Loulé, referente àquele sítio, e não obstante envidar os seus esforços, nada ali encontrou. A lenda aludida e que me foi contada por uma das velhinhas de Loulé, consiste em que ficara encantada no fundo da Fonte, onde há um palácio, certa moura muito rica, que tem ao lado do seu leito de ouro, doze alcofas de diamantes e brilhantes.
    Na mesma frèguezia, há ainda dois sítios, a Mesquita alta e a Mesquita baixa, onde também o meu aludido amigo não encontrou vestígios e lendas, e o mesmo sucede respectivamente a Alportel, nome de origem sarracena.
    É possível que as lendas referentes aqueles sítios se não achem completamente obliteradas.
    Notei entre as diversas pessoas que consultei a este respeito, uma visível repugnância ao narrar as lendas. Atribuo essa repugnância a duas causas: o receio de cair ni ridículo, pois que a época actual rasga tudo que lhe cheira a antiguidades, e o receio de magoar os desditosos encantados com a revelação das suas infelicidades».
    Um pouco mais felizes que o benemérito trabalhador, Ataíde de Oliveira, podemos apresentar duas lendas, reduzidas aliás, à máxima simplicidade.

    in, LOURO, 1996:348-349

     

    As mouras da cova da Moura

    Esta é contada, com o pensamento e olhar pouco tranquilos, pelos raros que, ali pela meianoite, se atreveram a passar por aquelas paragens pouco transitáveis.
    Muitos dos interpelados, mesmo nossos amigos e íntimos, não gostam realmente de falar no assunto, ou seja pelo ridículo da sua credulidade, como diz A. de Oliveira ou, - o que julgamos mais verdadeiro – pelo fundo receio ou medo de se intrometerem em coisassobrenaturais. No entanto, num rasgo decidido, afirmam que sim, que há lá na cova, mouros ou mouras, enfim, que há gente, visto que, bem claramente, ouviram: uns: «um grande barulho, gritos, prantos»; outros «muitas palmas e grandes carcachadas» que ecoavam estridulamente, nos penhascos vizinhos e, lá mais ao norte, nas encostas fronteiras. Um nosso parente acrescentou até que não só ele ficou durante algum tempo espavorido, mas até uma cadela que o acompanhava, ficou imóvel, repassada de pavor, numa noite em que este parente teve que pernoitar perto da Cova, e ali pela maia noite, quando começaram as carcachadas e as palmas.

    in, LOURO, 1996:348-349

    O sêrro da Branca-Flor (vulgo “Lenda da Branca Flor”)
     

    É um pequeno sêrro, perfeitamente arredondado no cimo, que fica a uma centena de metros da Cova, para noroeste. No cimo dele, à superfície, estão espalhados numerosos cacos de telha grossíssima; no leito da ribeira que lhe corre aos pés, está uma mó, já mutilada, de um lagar de vara. Em frente, espraia-se a vargem da corte, onde têm sido encontrados vestígios de gerações passadas, como dissemos já. Respira-se pois ali, a atmosfera do viver antigo, o que, de-certo, facilitou o aparecimento da lenda que é bem simples.
    Uma princesa, chamada Branca-Flor, muito linda como o seu nome indica, mas ainda mais rica, gostou tanto de viver ali naquelas serras que ficou condenada para sempre a nunca mais de lá sair. Ainda hoje, por ali anda e continuará a andar até que algum dia alguém quebre o encantamento. O que é, é que se não sabe como ele se quebra.

    in, LOURO, 1996:348-349

  • O Monte de Cevada

    É um montículo que está uns 100m a oeste do «monte do trigo». A estrutura é idêntica; a circunferência da base é um pouco menor; a altura será de uns 7m ; a encosta ao contrário da do «monte do trigo», é lisa; no cimo há uma camada de terra de aluvião, um pouco arenosa, à mistura com calhaus rolados. O morro pareça assim um tronco de cone. A camada de terra do cimo – a coroa do monte – já foi mais espessa e, em breve, desaparecerá. O dono, ainda á poucos anos, a desbastou ou deixou desbastar consideravelmente, para a extracção de pedra – e, quem sabe, se na mira de algum tesouro escondido!

    O «monte do trigo» devia estar outrora coberto por idêntica camada de terra como, além desta analogia, parece provar o subsolo circunvizinho.

    ¿Quando se fará o minucioso estudo geológico desta região?

    O lavrador do moitão de trigo tinha um irmão, em tudo semelhante a ele que morava próximo. Este, porém, em vez de um moitão de trigo, colheu um moitão de cevada, que, um belo dia, se transformou em terra idêntica – o actual monte de cevada – também pela recusa de esmola e blasfémias. Não esmiúça a lenda se foi no mesmo ano e se o facto se deu com o mesmo pobre.
    Variante – Algumas pessoas dizem que os lavradores eram do tempo dos mouros, pelatendência conhecida de se atribuir à sua época, todas as antiguidades.

    Outras pessoas dizem ainda que não eram dois lavradores, mas, um, porque acrescentam:
    «como podia ser que um acolhesse só trigo e o outro só cevada?»

    in, LOURO, 1996:347

  • A Cidade de Tesouro

    Noutra parte (V. pág. 42, nota) falámos dos numerosos vestígios encontrados em Alcaria-Tesoureiro. Porém estes vestígios têm uma história. A sua persistência e abundância através dos séculos formaram a lenda da existência da cidade de Tesouro, em anfiteatro, no montículo da Alcaria. Acrescenta o povo, por excepção, que a cidade já existia muito antes dos mouros e que era riquíssima. Esta última circunstância deriva, de-certo, dos vários achados de tesouros, na Alcaria, que a tradição ainda não esqueceu.

    in, LOURO, 1996: 348

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