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À conversa com Beatriz Torres e Ragash Gandabhai

No primeiro mês do calendário, damos a conhecer Beatriz Torres e Ragash Gandabhai, mais um bom exemplo de integração na comunidade de São Brás de Alportel.

A mexicana Beatriz Torres e o zimbabuense Ragash Gandabhai vivem em São Brás de Alportel em julho de 2018. “Para nós, só o estarmos aqui é o milagre do século”, garantem.

Beatriz trabalhava na área diplomática e foi trabalhar na Embaixada Mexicana no Zimbabué em 1991. Quando começou a pensar fazer obras em casa, uma vizinha recomendou o seu irmão Ragash que trabalhavam na área da construção. O amor surgiu 20 anos mais tarde.

Na altura, o Zimbabué era um país multicultural, pacífico e estável. Uma situação que mudou na última década de forma dramática, o que os levou a procurar um novo lugar para viver.

Em 2017, participam numa conferência no Carvoeiro que tinha como objetivo promover Portugal como destino de eleição para novos residentes estrangeiros. Nos dias seguintes visitaram Lisboa, Lagos, Loulé, Tavira, Albufeira e Faro.

Ragash conta que gostou muito de Loulé, mas que perceberam que o orçamento não chegava.

Já de regresso ao Zimbabué, continuaram a procurar casa ao mesmo tempo que deram início ao processo de legalização e obtenção de visto temporário de residência. Um processo complexo que demorou cerca de um ano a ficar concluído.

Em 2018, Beatriz regressa a Portugal para procurar casa, contando com a ajuda de uns amigos que moram em Faro. Conta-nos que ficou chocada ao perceber que o preço das casas tinha então quase duplicado. Em cinco dias, visitou 28 casas, mas eram muito caras. O filho dos amigos sugeriu que procurassem um pouco mais a norte e foi assim que conheceu São Brás de Alportel. Beatriz disse que ficou surpresa ao perceber que o concelho estava apenas a 20 minutos do aeroporto e bem próximo das praias e das principais cidades da região e com bom clima.

Assim que passou a rotunda dos Almocreves em direção ao centro da vila, Beatriz percebeu que era aqui que queria viver. Encontraram uma casa, junto à Fonte Nova, que necessitava de ser remodelada mas com uma vista magnífica, próxima do centro da vila, não necessitando de carro para as tarefas diárias. Venderam tudo o que tinham, compraram a casa para onde se mudaram, juntamente com os dois filhos, em julho de 2018.

Contam que a primeira festa a que assistiram foi a Feira da Serra. Ficaram surpresos porque se depararam com um evento de grande dimensão e que lhes dava a conhecer a cultura local de forma única.

Aos poucos foram percebendo que na rua da sua casa têm vizinhos estrangeiros e portugueses, com quem se foram cruzando e ganhando conhecimento e amizade aos poucos. Como a maioria fala inglês, a integração foi ainda mais fácil.

Beatriz conta que os vizinhos perceberam que estavam a fazer as remodelações da casa com recurso a materiais em segunda mão que pudessem reciclar e então começaram a doar coisas e até a emprestar ferramentas. “Todos foram muito prestáveis e hospitaleiros”, sublinha.

Durante o primeiro ano, para facilitar todos os procedimentos legais levavam sempre consigo uma mala com os dossiês com todos os documentos que lhes poderiam ser pedidos para evitar deslocações e demoras desnecessárias.

Beatriz que já tinha feito um curso de português anos antes, por questões de trabalho e por isso teve mais facilidade com o idioma, mas para Ragash foi mais complicado. Por isso, decidiram frequentar um curso intensivo. Contam que o curso promovido pelo Instituto de foi excelente, mas lamentam que tenha sido difícil aceder e que, entretanto, não tenha sido possível ter um curso de consolidação.

Para os filhos, a mudança também não foi fácil. Tiveram de deixar para trás a família, os amigos e o seu país para se adaptarem a uma nova vida e para uma casa em plena remodelação. O filho, agora com 20 anos, está a estudar na Secundária João de Deus, em Faro, e a filha, aos 18 anos, estuda na Escola Secundária José Belchior Viegas, aqui em São Brás.

Aqui, dizem sentir-se em casa e que conseguiram encontrar um local seguro que permite aos filhos tornarem-se mais independentes.

A adaptação à realidade e aos costumes portugueses não tem sido sempre fácil. A pontualidade e o respeito pelos prazos determinados para a realização de trabalhos na área da construção civil a que estavam habituados são aqui mais desafiantes. O sistema de transportes públicos é na sua opinião limitante para quem não tem outras opções. Mas Beatriz diz que quando decidiram mudar de país sabiam que tinham de se adaptar, integrar e aprender. Deixam elogios ao sistema de recolha de resíduos do concelho e à limpeza dos espaços públicos.

Aliás, a maior lição que dizem ter aprendido por cá é a serem pacientes e a não criarem expectativas. Contudo, ambos se dizem convictos de que o processo foi mais fácil em São Brás de Alportel pela forma como as pessoas os acolheram e os têm ajudado, algo que julgam que seria mais complicado numa grande cidade.

O casal diz ter saudades das festividades locais como a Noite Prata e contam que costumam visitar as exposições de fotografia no Museu do Traje e gostam de fazer caminhadas na natureza.

Ambos estão à procura de trabalho, mas por enquanto estão focados na remodelação da casa e na adaptação dos filhos.

 

São Brás de Alportel, janeiro de 2021

Espaço da responsabilidade do Município de São Brás de Alportel, sob coordenação do Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes, localizado no Centro de Apoio à Comunidade. Textos: Sofia Silva / Carmen Macedo

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