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Nota Histórica

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Esta procissão foi outrora popular em todo o Algarve. As confrarias eram então obrigadas a levar uma tocha acesa ou luminária e opas vestidas.

Posteriormente, a falta de cera levou ao aparecimento de paus pintados e ornamentados com flores, no cimo do qual se colocava uma pequena vela. Mais tarde, com o desaparecimento das confrarias, permanecem na procissão os paus enfeitados, as lanternas e as velas acesas ao lado do pálio e as opas, que ainda hoje são trajadas pelos homens que transportam o pálio.

Ao longo da procissão, sempre se cantaram hinos, responsos e o Aleluia, em honra da Ressurreição do Senhor. Outrora havia um ou dois coros a cantar e o povo respondia, mas com o passar do tempo, a falta de clero e de cantores, levou a que o canto ficasse na boca do povo.

Bibliografia:

In Viladentro, edição de FEVEREIRO/MARÇO2008

  • Nota Informativa, por Padre José da Cunha Duarte
    Homens cantando o Aleluia, em honra da Ressurreição do Senhor

    Ao estudar os costumes e tradições religiosas da região algarvia, no fim do século XIX e início do século XX, o Padre José Manuel Semedo Azevedo afirma que a procissão de Aleluia «está tão espalhada que poucas ou nenhumas freguesias a não fazem. Nalguns lugares ela tem foros de grande acontecimento. As ruas são juncadas, nas casas põem-se colgaduras e até as próprias velas das crianças e dos fiéis são floridas. É a procissão das flores, como nalguns lugares lhe chamam».

    As normas litúrgicas dizem que esta procissão «será feita logo de manhã antes da Missa ao romper da aurora», para recordar as três Marias que foram ao sepulcro ao nascer do sol e encontraram o túmulo vazio.

    Até ao século XX, esta procissão era muito popular em todo o Algarve. Com a implantação da República quase tudo desapareceu devido aos arruaceiros e proibição do Governo.

    Reposta a liberdade de culto, «poucas são as freguesias onde ainda se cantam as antífonas, os versículos e as orações próprias. No início do século XXI, só algumas paróquias mais tradicionalistas e cristãs é que realizam esta procissão (Cf, P. José Manuel Semedo Azevedo, 1960, Procissões da Semana Santa e de Domingo de Páscoa, Faro).

  • A Procissão
    Procissão da Ressurreição com as Tochas Floridas

    A são-brasense Helena Lopes da Cruz deixou-nos um testemunho escrito muito valioso na sua Monografia de S. Braz de Alportel, escrita na sua juventude, possivelmente na década de 1920

    As velas e paus enfeitados estão presentes:

    “Outra festa de grande devoção é a da Páscoa.

    O que mais caracteriza esta festa é a procissão da Ressurreição. No domingo de Pascoa, homens e crianças, envergando opas, levam tochas ( paus velas grandes de um metro e meio de comprido), enfeitados até ao meio de flores naturais. Percorrem as ruas adeante do palio entoando. - Ressuscitou como disse Alleluia, Alleluia. É a unica terra do Algarve onde se faz esta cerimónia e, por isso acorrem a S. Braz muitos forasteiros”

    1920

    O Jornal Folha do Domingo dá-nos vários relatos da procissão de São Brás de Alportel:

    “única em todo o Portugal. Incorporam-se nela dezenas de rapazes, que empunhando suas velas enfeitadas com lindas flores, entoam em alta grita, o “ressuscitou como disse, aleluia, aleluia”. Isto só em São Brás e a alegria que em todos se nota e a satisfação que em todos os rostos se lê, é como que a compensação da tristeza profunda dos dois dias anteriores» Em seguida celebrava-se a missa” (FD 1920).

    1921

    Em 1921, realizaram as procissões da Semana Santa «e no domingo a tradicional procissão da ressurreição na qual tem um papel predominante a mocidade são-brasense, entoando com quanta força os pulmões têm, o ressuscitou, como disse, aleluia, aleluia». (FD 1921).

    1925

    Em 1925 ainda existia na paróquia várias confrarias que davam dignidade à procissão. O articulista afirma que a procissão é em honra do Santíssimo Sacramento.

    No Domingo de Páscoa pelas dez horas saiu da igreja paroquial pelas ruas desta vila uma imponente procissão do Santíssimo Sacramento, na qual se incorporaram todas as confrarias desta freguesia, cantando o povo alegremente:

    Ressuscitou como disse, aleluia (FD 1925).

    1928

    Realizaram-se, em 1928, as procissões da Semana Santa e da Páscoa. O articulista fala de modo particular da procissão nocturna de Sexta-Feira Santa. Algumas mentes republicanas usavam a Liberdade para faltar ao respeito e provocar distúrbios. Afirma que o Enterro do Senhor foi «imponente» apesar da oposição política reinante. Não houve incidentes pois havia policiamento no templo e nas ruas da vila. Por aqui se vê que São Brás de Alportel tinha uma célula republicana aguerrida como noutras localidades algarvias. Até dentro da Igreja havia polícias tal era a falta de educação e de respeito… (FD 1928).

    1942

    Em 1942, o povo da São Brás de Alportel testemunhou a sua fé com respeito. No Domingo de Páscoa realizou-se a tradicional procissão da Ressurreição, aparecendo sem respeitos humanos, bastantes homens empunhando ramos de flores e cantando com muito propósito e respeito». O Dr. Alberto deu um jantar a todos os pobres da freguesia. «Realizou-se a Procissão da Ressurreição antes da missa, percorreu as ruas da vila, Jesus-Hóstia. A procissão bem organizada mostrava bem a fé e o respeito dos fiéis (FD1942).

     

  • Ruas
    Tapete de flores

    As ruas da aldeia eram todas varridas e arranjadas. No dia de Páscoa ficavam todas atapetadas com alecrim, rosmono (rosmaninho), alfazema e flores campestres. Grinaldas de flores enfeitavam as paredes das casas térreas. Colchas brancas e encarnadas pendiam pelas janelas, varandas e açoteias. As famílias mais abastadas da aldeia construíam, junto de suas casas, arcos triunfais com verdura, flores e fitas berrantes (FI nº1).

  • As Tochas
    Tocha

    No início do século XX, com o desaparecimento das confrarias, a Procissão de Aleluia perdeu algum brilho e magnificência. A procissão continuou a realizar-se, mas foram-se introduzindo algumas mudanças. O canto tradicional desapareceu com a falta do clero e o grupo dos cantores nem sempre existia.

    Muitas vezes era o pároco que entoava o canto sozinho. As tochas floridas (velas grossas) começam a rarear dado que as confrarias agonizantes já não as confeccionam. Para a procissão o povo levava «canas» ou «varapaus» ornamentados com flores. Muitos colocavam apenas um coto de cera no cimo dos paus. Ao consultar o livro das despesas das festas das paróquias encontra-se a verba destinada ao “aluguel de tochas”. Pagava-se de acordo aos centímetros de cera gasta. Os poucos irmãos da confraria do Santíssimo Sacramento é que levavam as tochas acesas, junto ao pálio. Quem pagava a quota anual tinha direito a levar uma tocha de cera. A falta de velas de cera levou ao uso de tochas de folha de flandres, da altura de uma pessoa. No cimo havia um estojo automático com mola em hélice para manter a vela sempre acesa. Estas velas foram substituídas pelo plástico.

    Qualquer igreja usa estas tochas nos altares para a celebração litúrgica. A cera agora é líquida e não faz fumo. Quem visitar a igreja do Ferragudo encontrará cerca de duas dezenas tochas de madeira e cruzes pertencentes às confrarias. São de diversas cores de acordo com as opas e estandartes. Qualquer igreja tem uma mão cheia de lanternas enfiadas num pau. A lanterna permitia conservar a vela acesa.

    As antífonas e hinos deixaram de se cantar e ficou apenas o resto de uma antífona e um aleluia deturpado que nada tem a ver com o aleluia pascal, que foi e ainda é tradicional no dia de Páscoa em toda a Igreja.