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Artes e Ofícios Tradicionais

Artes e Ofícios Tradicionais

“À DESCOBERTA DOS OFÍCIOS TRADICIONAIS”

O Centro de Artes e Ofícios do Município de São Brás de Alportel convida à redescoberta deste valioso património imaterial, constituído pelas nossas tradições, Alma da nossa Gente!
O Projeto “À descoberta dos Ofícios Tradicionais” é uma iniciativa do Município de São Brás de Alportel.

  • Dª Maria José dos Bolos [homenagem a título póstumo]

    Dª Maria José dos BolosSeguimos a nossa viagem, por Vales da Memória, para conhecer uma das mais carismáticas doceiras são-brasenses… “Dª Maria José dos Bolos”

    A pele enrugada do seu rosto mostra percursos da passagem do tempo, que contrastam com a vivacidade brilhante de um olhar apaixonado pela vida… assim é Maria José, uma das mais antigas doceiras são-brasenses.
    A completar em breve 92 anos de idade Maria José “dos Bolos” ou D.ª Zezinha, como é carinhosamente conhecida, guarda na memória receitas de outrora e um enorme carinho pela arte de confecionar bolos e menus para todo o tipo de festas. Conta que começou a trabalhar aos 16 anos em casamentos, batizados, festas de aniversário, bodas de casamento… e só parou aos 84 anos.
    A cozinha e a confeção de bolos nunca foram encaradas como uma simples profissão, mas antes como uma missão: contribuir para dias inesquecíveis, para a felicidade de quem a contratava.
    Trabalhava de dia e de noite se fosse preciso para que tudo estivesse no ponto à hora marcada. Naquela altura os bolos mais apreciados eram: o Toucinho do Céu, os morgados, o bolo celeste, pão de ló, bolo de amêndoa e gila, e muitos bolos secos, bolo limão, raivas, queijos de amêndoa, bolos de amêndoa e chocolate, folhados, entre muitos outros.
    Nos casamentos as ementas mais pedidas eram as de carne assada “no tacho para a carne não secar”, estufados e bacalhau com natas. Dos inúmeros casamentos que fez, no Algarve e no Alentejo, onde chegava a ficar mais de 8 dias a trabalhar, Maria José relembra um dos maiores bolos que fez… tinha 6 andares enormes para centenas de convidados!
    Ao fim de tantos anos a celebrar bons momentos, Maria José confessa que nunca pensou em casar… casou com o trabalho e viveu para cuidar dos seus entes mais próximos.

    Agradecemos a gentil colaboração da Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel

  • Romão Galego dos Santos, era uma vez o sonho de um alfaiate
    Alfaiate

    Partimos à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais e desta feita, numa conversa simpática e animada, descobrimos a história de vida de um alfaiate que durante 40 anos se dedicou a este ofício.

    Romão Galego dos Santos nasceu em 1940, no sítio dos Vilarinhos, onde tem vivido grande parte da sua vida. Hoje tem um negócio seu, o Café Romão que todos conhecem, mas durante 40 anos foi alfaiate.
    Era uma vez, já lá vão muitas eras, quando o jovem Romão veio aprender à vila o ofício de alfaiate com o Sr. José Pinto. O mestre haveria de falecer poucos meses depois e Romão foi trabalhar para o Sr. Brás Raminhos. Surgiu então a oportunidade de ir para Loulé, aprender um serviço mais sofisticado. E depois de Loulé, o jovem alfaiate arriscou a sua sorte em Lisboa, onde teve durante meses a especializar-se.
    Naquele tempo, a vida era muito difícil e Romão viu-se mesmo obrigado a desistir e regressar à sua terra natal, sem nunca ter renunciado ao sonho de tirar o curso de alfaiate, que acabou por realizar, tirando o curso por correspondência.
    Há alguns anos, muito embora a sua paixão tenha sido sempre a alfaiataria, o alfaiate Romão colocou de lado esta arte porque teve oportunidade de montar um café e pensou que poderia assim criar um posto de trabalho para o seu filho. Acontece que este acabou por seguir outro rumo e Romão lá ficou com os dois trabalhos em mãos e acabou por escolher o Café. Hoje, e apesar da saudade de traçar a lápis e sabão modas e feitios, considera que fez a melhor opção, porque os anos foram passando e o ofício de alfaiate exige muito da vista, já muito desgastada, e as artroses vão roubando a sensibilidade às pontas dos dedos…
    Para além disso, como nos diz: “esta profissão entrou em desuso quando a vida se modernizou e os prontos a vestir assumiram uma posição preponderante. Hoje em dia o ritmo de vida é outro e torna-se mais fácil, mais rápido e sobretudo mais prático ir a uma loja escolher o fato e comprá-lo no momento”. Fazer um fato envolvia muito tempo e era todo um minucioso exercício de arte: desde o tirar das medidas, passando pelas provas (pelo menos 2), até ao dia de entregar o artigo ao freguês!
    Das muitas memórias que guarda com carinho, o alfaiate Romão conta-nos a história do noivo que partiu para França depois de casar, sem ter pago o fato de casamento, tendo ao fim de contas (e acertadas as contas, claro está) feito ali um grande amigo.

  • Maria Teresa Silva, no mundo dos pirolitos
    Pirolitos

    Partimos à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais, para dar a conhecer este valioso tesouro cultural e desta feita partimos numa viagem ao passado que nos levou a um tempo em que o “café dos pirolitos” era paragem obrigatória…

    Maria Teresa Sousa Silva nasceu em 1948 em São Brás de Alportel, a sua terra desde sempre. Casada, com 3 filhos, partilha com o marido a vida de trabalho no café que ambos possuem há mais de uma década.
    O fabrico de pirolitos é uma verdadeira tradição de família, que lhe foi transmitida pela mãe, que por sua vez já a tinha aprendido com uma tia. A mãe de Maria Teresa confeccionou pirolitos durante toda a sua vida. A sua casa, no burgo antigo da vila, no Largo do Mercado, antigamente conhecido por “Barreira dos Porcos” era paragem obrigatória para a garotada que passava para a escola, e ali comprava o seu pirolito ou um geladinho de gelo. Em homenagem a esta tradicional e popular guloseima, a pequena travessa que deriva do Largo do Mercado unindo-se à Rua da Fonte recebeu o nome de Travessa do Pirolito na recente revisão toponímica da Vila.
    Maria Teresa descobriu o gosto pelo fabrico dos pirolitos já lá vão muitos anos, tantos que já não se consegue recordar do dia da sua primeira aventura no mundo dos pirolitos. Os anos passaram, as modas também e muitas outras guloseimas foram surgindo, mas os pirolitos continuam a despertar o apetite de miúdos e graúdos. Maria Teresa continua a confeccionar pirolitos, pela procura que têm no seu café e por este gosto que confessa ser quase um vício, capaz de a esquecer as queimaduras frequentes e o longo tempo que despende na sua confecção. Ainda não ensinou a ninguém esta arte, até porque os filhos não têm revelado curiosidade e por isso Maria Teresa teme que este, como outros ofícios, possa vir a extinguir-se dentro de pouco tempo.
    Os convites para participar em eventos são frequentes, mas é só na Feira da Serra que Maria Teresa dá o ar da sua graça e aí é “dá gosto ver novos e velhos a chupar o pirolito”.
    Para os mais curiosos, desvendamos o segredo do pirolito: Coloca-se a água juntamente com açúcar ao lume. Quando estiver no ponto (este é o principal truque), desliga-se o fogão e junta-se o aroma. Os sabores podem ir desde mel, com que se fazem os pirolitos tradicionais, até morango, ananás ou até limão!
    Mas das mãos de Maria Teresa não nascem apenas pirolitos… Na altura da Páscoa, confecciona as tradicionais amêndoas tenras de São Brás que fazem as delícias de quem visita o concelho.

  • Horácio Amaro e ofício de ferrador
    Ferrador

    Partimos à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais e desta feita estivemos à conversa com Horácio Amaro, numa visita à Quinta do Peral e ficámos a saber mais sobre o velho ofício de ferrador.

    Horácio da Conceição Amaro nasceu em 1953, já lá vão 56 anos, é natural do Pereiro, freguesia de em Moncarapacho e guarda consigo os segredos de um ofício em vias de extinção.
    Foi em Santa Catarina que aprendeu já lá vão muitos anos, o velho ofício de ferrador, com um mestre que lhe deu o primeiro trabalho, onde ganhava 7$50 (sete escudos e cinquenta centavos).
    Durante toda a mocidade, Horácio continuou o ofício e mesmo durante o serviço militar exerceu a tarefa de ferrador, no Convento de Mafra, onde teve oportunidade de estudar, conquistando o diploma de enfermeiro veterinário.
    Anos depois, conta-nos Horácio, o trabalho tornou-se muito escasso e o ferrador teve que abandonar o ofício para aceitar uma nova proposta com muito melhor remuneração. Durante 24 anos, trabalhou na indústria do sal, mas diversos problemas de saúde obrigaram-no a abandonar o emprego. Tentou depois a sua sorte na construção civil, mas haveria de ficar desempregado pouco tempo depois, numa fase difícil deste sector.
    Eis que após muitos anos sem ferrar qualquer animal, em resposta a muitos pedidos que iam surgindo, Horácio decidiu investir na compra de material para voltar a exercer o trabalho de ferrador.
    Ser ferrador implica ser conhecedor das manhas dos animais de quem cuida com carinho. Horácio conhece bem os seus segredos, e todos os truques para ferrar burros, cavalos, mulas e até vacas (que antigamente também eram ferradas por causa da lavoura) e também para tosquiar.
    Explicou-nos que nos meses de Março e Abril, os burros devem ser tosquiados e de três em três meses devem ser ferrados para que não tenham os cascos grandes.

    Para obter bons resultados, há que começar com um primeiro contacto: a abordagem necessária para ver se o animal está calmo, e caso esteja agitado, é necessário atar as patas antes de começar o trabalho. E quando os animais estão sujos, não se pode passar à tosquia sem antes começar com a limpeza.
    O ferrador deslocou-se à Quinta do Peral para a habitual visita ao burro Zacarias. E enquanto procedia à tosquia, Horácio lá nos foi revelando artimanhas destes curiosos cuidados de beleza a 4 patas.

  • Ricardo da Luz Amaro, o guardador de rebanhos
    Rebanho pastor

    Partimos à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais e descobrimos uma verdadeira história de amizade

    Era uma vez um menino que fugia da escola para ajudar o seu pai a pastar as ovelhas… Este bem podia ser o início de um livro de histórias. Mas esta é a história real de Ricardo Amaro, um jovem pastor de apenas 32 anos que fomos encontrar por terras de Alportel.
    Ricardo lembra-se de tomar conta das ovelhas desde sempre… As suas memórias de infância misturam-se com as histórias do pastoreio com o pai, de quem herdou este ofício. Com apenas 14 anos, decidiu que ser pastor haveria de ser o seu trabalho para sempre. Hoje, diz não estar arrependido, gosta muito do que faz e nem sequer se imagina a fazer outra coisa. Vai dividindo o negócio com o irmão, que tem a tarefa de negociar com os clientes, enquanto Ricardo trata do rebanho. Mas os tempos não estão fáceis… e já houve uma vez em que quis tentar outra sorte: vendeu todas as cabeças de gado, mas 8 dias depois voltou a comprar mais e descobriu que não sabia viver de outra forma… Os animais são a sua “verdadeira companhia” e não sabe como viver sem eles.
    Assim… todos os dias, faça sol ou chuva, a rotina de Ricardo repete-se: levanta-se bem cedo e começa o dia a cuidar dos animais. Logo pela manhã, há que tratar de um conjunto de afazeres: desinfectar as patas, tratar de alguns ferimentos; tosquiar, se for tempo disso, limpar o curral e ordenhar. À tarde, leva o rebanho a pastar e ao fim do dia é tempo de regressar a casa, para preparar mais um duro dia de labuta.
    O jovem pastor conhece bem as manhas do gado. Paciente e cauteloso, zela sempre pela saúde dos animais e orgulha-se dos seus cuidados, que têm evitado visitas ao veterinário.

    Os cães são os seus companheiros de jornada, e têm um papel muito importante neste ofício de pastor: ajudam a guardar as ovelhas, são guias e protectores, e lá estão eles em posições estratégicas sempre a “coordenar a operação” quando há que atravessar a estrada ou mudar de rumo… Sempre alertas, os cães sabem exactamente tudo o que se passa e para onde devem levar o rebanho, sempre atentos quando uma se afasta ou se aventura… “Só lhes falta falar”, como diria o povo. Certo é que quando o pastor lhes ordena “A cabra está a fazer mal!”, logo os cães correm em sua direcção, sem tocar em qualquer ovelha!
    Apesar de parecerem iguais aos nossos olhos, Ricardo conhece bem cada uma das suas “meninas”. Às cabras, dá-lhes nome próprio: “Manjerico”, “Alpina”, “Calçadinha”, “Andorinha”,… e entre as ovelhas, só a “Jóia” foi baptizada e assim que Ricardo a chama, vem logo ter à sua mão…
    No dia em que fomos visitar este jovem pastor, quis o destino presentear-nos com uma dos mais bonitos momentos da natureza… Uma das ovelhas tinha acabado de dar à luz um borreguinho e foi mágica a cumplicidade existente entre a mãe e o filho. Muitas vezes, quando estas situações se complicam, Ricardo ajuda as suas “meninas” a dar à luz os filhotes.

  • Duas Vidas e um Moinho
    Moleiros

    Partimos à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais e neste caminho descobrimos dois moleiros dispostos a contar as histórias curiosas de um tempo em que os moinhos faziam parte da vida da comunidade e davam ao povo o pão de cada dia.

    Virgílio Rodrigues de Sousa nasceu no ano de 1922, já lá vão 77 eras. Com apenas 15 anos, deparou-se com uma grande responsabilidade: o seu pai tinha asma e não podia continuar a exercer a profissão, pelo que deixou esse encargo nas mãos do seu filho. Assim começou o seu percurso… Dos 15 aos 36 anos, andou de moinho em moinho e recorda com saudade esse tempo passado, que o marcou para sempre.
    Mais tarde, aos 36 anos viu-se obrigado a abandonar a vida no moinho e a dedicar-se a outra profissão até à sua reforma. Mas a magia dos moinhos há-de viver para sempre dentro de si. E por isso, desde que o velho Moinho do Bengado voltou a girar, tem colaborado sempre que pode, partilhando o seu conhecimento com as novas gerações.
    Paulino Viegas das Neves nasceu em 1932, tinha o moleiro Virgílio 10 anos de idade. Num percurso contrário, Paulino foi moleiro até aos seus 15 anos, altura em que por falecimento do pai, também moleiro, com quem aprendeu tudo o que sabe sobre esta arte, não pôde continuar o ofício, dedicando-se ao trabalho de carpinteiro.

    Os moinhos fazem parte da vida de Virgílio e Paulino… Ambos nasceram num moinho, num tempo em que não existiam maternidades; e herdaram da família a tradição de ser moleiro, que teve início nos seus bisavôs. Hoje, guardam uma ternura especial por este moinho agora recuperado e recordam os tempos em que ser moleiro era uma boa profissão pois “permitia dar de comer e beber a uma família”.
    O Sr. Virgílio está já reformado e o Sr. Paulino dedica-se à carpintaria, mas não deixam de colaborar nas visitas ao Moinho (cada vez mais procuradas, pois integram o Plano de Actividades da Quinta do Peral), recontando as velhas histórias e desvendando os segredos aos visitantes e muito especialmente às crianças, a quem gostam de explicar a história do pão… Era uma vez, no tempo em que as velas dos moinhos rodavam no cimo dos montes … os pequenos bagos de trigo caíam dentro do orifício da mó, que os desfazia e transformava em pó, sendo depois peneirado. O pó era utilizado para fazer o pão e o farelo era dado aos animais.

  • José João Horta e a vida do telheiro
    Telheiro

    Partimos à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais, para dar a conhecer este valioso tesouro cultural, legado de geração em geração… E neste mês fomos até ao telheiro, desvendar os segredos desta misteriosa arte do barro.

    José João Viegas Horta nasceu em 1959, em Cachopo, por terras do concelho de Tavira, mas é no sítio das Mealhas que tem passado a maior parte da sua vida.
    Este ofício do barro não é uma herança de família, mas um desses misteriosos encontros do destino… Há muitos anos atrás, tinha José a profissão de pedreiro, quando num Verão, veio trabalhar no telheiro. A experiência haveria de o marcar tanto, que o levou a decidir arriscar neste ramo e por conta própria, na ilusão de que a vida poderia ser melhor, tendo um negócio seu…
    Hoje, durante quase todo o ano, o telheiro conta apenas com o trabalho de um só homem, e só no Verão emprega mais pessoas, para responder ao aumento das encomendas. Mas nos primeiros anos, ainda se lembra de ter oito funcionários a trabalhar… Nos dias de hoje, devido à crise na construção, a procura desceu muito e não há como dar emprego a mais gente.
    O telheiro tem acolhido muitos jovens, sobretudo em períodos de férias, Conta-nos José que todos os que por lá passam, aprendem sempre pequenos truques, próprios da labuta do telheiro… Porém, como nos confidenciou, o trabalho de moldar o barro é difícil, e nem todos conseguem desempenhar esta tarefa… por isso acaba sempre por ser apenas ele quem executar o trabalho de dar forma ao barro. E deste barro, nascem telhas e ladrilhos, revestimentos para chão, pilares e tectos, procurados sobretudo por quem tem casas de férias e casas de campo, estrangeiros, em grande parte.
    Como em todos os ofícios, a necessidade de evoluir é um desafio sempre presente, e com José João não foi diferente. Para manter o seu negócio, precisou investir muito, e se inicialmente era tudo feito manualmente, hoje já por lá tem muitas máquinas, que o ajudam no trabalho. Contra as dificuldades, José João tem lutado para manter o seu ofício - o duro trabalho do barro - que no Inverno é especialmente custoso, por trabalhar sempre com água, mesmo nos meses mais frios do ano.

    Para os mais curiosos: o barro que é trabalhado neste telheiro é extraído no território da freguesia de Santa Catarina da Fonte da Fonte da Bispo.
    Primeiro, há que pôr o barro à chuva e ao sol, sendo depois triturado por máquinas e colocado então na amassadeira. Quando estiver pronto para ser trabalhado, é colocado em diferentes moldes e depois põe-se a secar, seguindo para o forno, a uma temperatura de 800º a 900º c. A cozedura dura cerca de 30 horas, porque se pretende que coza pouco a pouco, para obter os melhores resultados.

  • D. Zezinha
    D. Zezinha

    HOMENAGEM A TÍTULO PÓSTUMO

    Seguimos a nossa viagem, por Vales da Memória, para conhecer uma das mais carismáticas doceiras são-brasenses… “Dª Maria José dos Bolos”

    A pele enrugada do seu rosto mostra percursos da passagem do tempo, que contrastam com a vivacidade brilhante de um olhar apaixonado pela vida… assim é Maria José, uma das mais antigas doceiras são-brasenses.
    A completar em breve 92 anos de idade Maria José “dos Bolos” ou D.ª Zezinha, como é carinhosamente conhecida, guarda na memória receitas de outrora e um enorme carinho pela arte de confecionar bolos e menus para todo o tipo de festas. Conta que começou a trabalhar aos 16 anos em casamentos, batizados, festas de aniversário, bodas de casamento… e só parou aos 84 anos.
    A cozinha e a confeção de bolos nunca foram encaradas como uma simples profissão, mas antes como uma missão: contribuir para dias inesquecíveis, para a felicidade de quem a contratava.
    Trabalhava de dia e de noite se fosse preciso para que tudo estivesse no ponto à hora marcada. Naquela altura os bolos mais apreciados eram: o Toucinho do Céu, os morgados, o bolo celeste, pão de ló, bolo de amêndoa e gila, e muitos bolos secos, bolo limão, raivas, queijos de amêndoa, bolos de amêndoa e chocolate, folhados, entre muitos outros.
    Nos casamentos as ementas mais pedidas eram as de carne assada “no tacho para a carne não secar”, estufados e bacalhau com natas. Dos inúmeros casamentos que fez, no Algarve e no Alentejo, onde chegava a ficar mais de 8 dias a trabalhar, Maria José relembra um dos maiores bolos que fez… tinha 6 andares enormes para centenas de convidados!
    Ao fim de tantos anos a celebrar bons momentos, Maria José confessa que nunca pensou em casar… casou com o trabalho e viveu para cuidar dos seus entes mais próximos.

    Agradecemos a gentil colaboração da Santa Casa da Misericórdia de São Brás de Alportel

  • Maria José, História de Costureira [homenagem a título póstumo]
    Maria José

    Costureira Desta feita, estivemos à conversa com a costureira Maria José, desfiando histórias de tesoura e linha, numa vida dedicada às artes da costura.

    Maria José tem 88 anos, bem escondidos sob o sorriso e o olhar de uma jovem. Nascida e criada na Mesquita, descobriu aos 18 anos o ofício da costura, com a irmã, que tinha ido aprender para Faro e ao longo de 66 anos, foi costureira de “corpo e alma”! Mais do que uma profissão, a costura foi sobretudo uma grande paixão; e só a doença de coluna, causada pelas longas horas de trabalho, a obrigou a abandonar o ofício há 4 anos, dando descanso aos olhos, tão castigados durante quase 7 décadas de trabalho, principalmente quando tinha que costurar roupa escura durante a noite, como recorda… Actualmente, é com tristeza que recusa os muitos pedidos que ainda vão chegando. Reconhece as suas limitações, mas garante que o “bichinho” continua vivo, e que por isso não resiste a continuar a costurar, nem que seja apenas para a família.
    Noutros tempos, Maria José, a conhecida Zezinha, era uma verdadeira mestra nas artes da costura: das suas mãos nasciam fatos, blusas e vestidos, casacos e até disfarces de carnaval, trajes para as marchas dos Santos Populares, famosos vestidos de chita e bonitos vestidos de noiva. Corria longe a fama da sua habilidade e por isso choviam pedidos, tanto de pessoas humildes, como de famílias mais abastadas. A todos, gostava de servir, com o mesmo empenho e dedicação!
    A sua casa foi sempre o seu local de trabalho, mas em épocas de mais serviço, era chamada pelos donos das lojas, conhecedores do seu talento, para dar auxílio. A casa da costureira era um lugar de constante agitação: com o movimento das freguesas, em dias de prova; e o entra e sai das raparigas que vinham “à costura”, aprender com a Zezinha os truques do ofício. Naquele tempo, enquanto os homens procuravam emprego na cortiça ou na construção, muitas mulheres procuravam arranjar trabalho na costura.
    Enquanto contava a sua História de Costureira, Maria José mostrou-nos o cantinho onde costurava, e a máquina de costura que ao longo dos anos a acompanhou e que continua bem estimada. Em jeito de segredo, confessou-nos que o seu truque foi sempre a forma de “talhar”, que lhe permitia aproveitar muito bem o tecido e fazer autênticos milagres. Em tempos difíceis, muitas vezes o pano era pouco para o que as freguesas pretendiam, parecia mesmo não chegar, mas as artes da Zezinha, a sua imaginação e paciência sempre encontravam forma de levar a cabo a obra.

    Para os curiosos, ficam os 6 passos da costura:

    Primeiro, há que tirar as medidas ao freguês; depois talha-se o tecido com as dimensões e os feitios desejados. Faz-se então a 1.ª prova, depois é cosida a peça, faz-se uma segunda prova (que Maria José sempre dispensava, dada a sua mestria) e é chegada a hora de experimentar e entregar o trabalho concluído.

  • João Dionísio Rita e o ofício de canteiro
    Arte do canteiro

    Arte do CanteiroEste mês quisemos conhecer melhor a dura arte da pedra e estivemos à conversa com o canteiro João Dionísio Rita…

    João Dionísio Abreu Rita nasceu na era de 1939, já lá vão 70 anos, e as suas mãos calejadas revelam uma história de vida dedicada ao trabalho.
    Como tantos outros portugueses, João Dionísio tentou a sua sorte, emigrando para o estrangeiro e esteve por terras de França e Suíça para lá de 18 anos. Ao contrário da maioria dos emigrantes, naquela época, João partiu já com contrato de trabalho e diz que talvez por isso tudo tenha corrido sempre sem sobressaltos.
    Hoje, é o único canteiro, em todo o concelho de São Brás, que ainda se dedica à cantaria artesanal, um ofício que surge na sua vida como uma tradição de família, herdada do pai e do avô. A arte da pedra ficou-lhe nas mãos e na alma e apesar da dureza, encerra uma beleza que não deixa de o prender.
    João Dionísio trabalha por conta própria há já 30 anos. Natural da Bordeira, é nos Funchais, que trabalha desde sempre.
    E entre dois dedos de conversa, João Dionísio vai-nos mostrando como a pedra toma forma, sob o seu martelo;  e explica-nos que a dureza do ofício levou ao investimento em novas tecnologias e que hoje já não há quem queira “arriscar os dedos” a trabalhar a pedra. As máquinas substituíram os homens, as modernas oficinas tomaram o lugar dos canteiros… Não sabe até quando persistirá, teimosamente, a trabalhar a pedra, por gosto e pelos pedidos de quem ainda ali corre à procura dos seus trabalhos. Trabalhando artesanalmente, apenas pode aceitar os trabalhos pequenos, pois os grandes demoram largos meses a concretizar.
    Partilhamos, com os mais curiosos, os três passos do processo da cantaria artesanal, como nos explicou este mestre canteiro: primeiro, é preciso alugar uma máquina, para extrair as pedras; depois há que seleccionar, um trabalho deveras importante; e finalmente partir a pedra, conforme se pretende: calçada ou rústico.

  • Helena Viegas e a Paixão pelas Rendas
    Rendas

    Arte das RendasDesta feita fomos ao encontro de Helena Viegas, que muito carinhosamente nos abriu a porta da sua casa para nos contar a história da paixão que lhe ocupa os dias… a Renda!

    Helena recebeu-nos no calor do seu lar e entre uma chávena de chá e uma saborosa fatia de bolo, foi-nos explicando um pouco da sua vida, da paixão da renda e da forma como esta surgiu há muitos anos atrás na sua vida.
    Helena do Carmo Viegas nasceu em 1941, já lá vão quase 68 anos. É natural de Santa Catarina da Fonte do Bispo, mas vive no concelho de São Brás há já 45 anos, desde a altura em que se casou. Terminou os estudos na 3.ª classe, pois naquele tempo não existia a 4.ª classe e trabalhou toda a sua vida no campo.
    Para compensar a vida da dureza do campo, Helena descobriu a beleza e a suavidade da renda… uma paixão antiga, que descobriu sozinha e que sempre lhe serviu de companhia, dando asas à sua criatividade. Hoje continua a dar novas formas à sua arte e as revistas são muitas vezes o molde de inspiração para as suas peças. Auto-didacta, diz-nos orgulhosa que foi experimentando que conseguiu aprender e fazer as peças maravilhosas que nos mostra.
    No início, as rendas serviam apenas para uso pessoal, para si ou para os familiares, que gostava de presentear com os seus trabalhos. Mas tudo mudou, quando foi desafiada pela sobrinha para participar na Feira da Serra: ela expunha os seus quadros e a tia as suas rendas. A primeira participação aconteceu há três anos e a partir dessa altura, Helena nunca mais deixou de participar no certame, mesmo sem a companhia da sobrinha. Gosta de ouvir os comentários das pessoas ao seu trabalho e de escutar-lhes os elogios “Dizem que faço trabalhos muito bem feitos”. As portas de sua casa estão sempre abertas para mostrar a sua arte a quem a visita.
    A renda é uma verdadeira paixão, que lhe consome as horas… O marido bem se queixa de que Helena, quando estão com as mãos na renda, nem lhe dá atenção, mas Helena explica que quando está empenhada num trabalho, precisa de toda a concentração!

  • O barbeiro Cavaco e as histórias com barba e cabelo… [homenagem a título póstumo]
    Barbeiro Cavaco

    Barbeiro CavacoDe visita à barbearia do Sr. Cavaco, viajámos no tempo, ao encontro das suas memórias.

    José Cavaco Custódio nasceu a 5 de Agosto do ano de 1920, no concelho de Loulé, já lá vão quase 90 anos, mas foi a vila de São Brás que escolheu para viver desde os 23 anos de idade.
    José Custódio orgulha-se de ser o barbeiro mais antigo, ainda em actividade em São Brás de Alportel, e dos seus clientes fiéis que continuam a não trocar o seu estabelecimento pelos modernos cabeleireiros.
    Começou a trabalhar com 9 tenros anos de idade, tendo passado por locais tão diversos como a mina de carvão de Santa Susana e a barragem do Torrão, trabalhos em Martinlongo, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Bengado e até Angola. Conta-nos, com vaidade, que mesmo sem saber ler nem escrever, foi encarregado de 22 homens na obra do Parque Matias, no Bengado.
    A vida dura de trabalho roubou-lhe a possibilidade de se dedicar aos estudos enquanto jovem, mas com a ajuda do filho e da Cartilha Maternal João de Deus, aprendeu mais tarde a ler e a escrever: “Fui escrevendo, soletrando até aprender”.
    O ofício de barbeiro aprendeu-o em Santa Catarina, numa barbearia onde o proprietário lhe tinha dado um cantinho para poder exercer a sua profissão naquela época: chapeleiro. Durante esse tempo, começou a ajudá-lo a rapar os pescoços, e daí até ao corte de cabelo e barba foi um instante.
    A partir daí, não mais deixou esta profissão: teve uma barbearia na Mesquita, passou pela barbearia do Sr. Manuel Negrão e ficou depois a tomar conta da barbearia do Sr. Valagão. Entretanto, decide arriscar e ir para Angola em busca de um futuro melhor, mas a estadia foi curta e três meses bastaram para perceber que a sua vida não passava por ali. Chegado a Portugal, regressou de imediato à barbearia do Sr. Valagão e desde então, dedicou-se ao ofício, de alma e coração.
    Mais tarde, estabeleceu-se na Rua Teófilo Braga onde trabalha até hoje.
    Não hesita em dizer que se considera um bom barbeiro e não esconde o orgulho quando recorda que há décadas atrás toda a elite são-brasense depositava a confiança nas suas mãos.
    Aos 88 anos, continua a abrir a porta da sua barbearia, todos os dias de manhã, porque gosta de ali estar e esta e a forma de estar distraído. Na companhia do filho que partilha com o pai muitas das suas lembranças, José Custódio desfia as suas memórias, recordando outros tempos e outras modas.
    Fazer o cabelo custava então 1 escudo, enquanto que fazer barba e cabelo já ia para escudo e meio.

  • Crispim e Margarida e as histórias das vassouras de palma [homenagem a título póstumo]
    Vassoura de palma

    Estivemos à conversa com José Crispim e Margarida Horta, unidos pelo amor e pela arte, desfiando memórias de vassouras de palma.

    Vassoura de PalmaJá completou 87 Primaveras mas os anos não lhe levaram o sonho e a ternura que conserva no olhar. José das Dores Crispim nasceu em Tavira e casou em Loulé, mas foi o concelho de São Brás que escolheu para viver há quase seis décadas atrás. Pai de duas filhas, trabalhou durante toda a vida a podar árvores, mas o tempo roubou-lhe a força e hoje recorda com saudade:

    “Trabalhei enquanto pude
    Levantar a minha enxada
    Perdi no campo a saúde
    Não posso cavar mais nada!”

    A arte de fazer vassouras de palma aprendeu-a com um velhote que morava perto de sua casa, já lá vão muitos anos. A partir de então, foi aperfeiçoando a sua técnica, começou a expor os seus artigos e a ser convidado para diversas feiras. Não se ficou pelo Algarve, tendo levado a sua arte a outros pontos do país.
    À sua companheira de toda a vida, a esposa Margarida Horta, perguntavam-lhe por diversas vezes, porque não o acompanhava nessas andanças. Durante anos observara o seu marido a trabalhar e também ela já conhecia os truques ao ofício. Apesar de se dedicar mais aos cestos, também se ajeitava com as vassouras e começou então a acompanhá-lo sempre que ia expor os seus trabalhos. Contou-nos até que uma vez, quando o marido ficou doente, foi mostrar aos meninos da escola como se faziam as vassouras de palma.
    José e Margarida explicaram-nos que o ofício é como um vício, a que não se consegue resistir: “obriga o motorzinho que temos dentro de nós a trabalhar e faz-nos ficar até altas horas da manhã agarrados a um trabalho se for preciso” E nem a doença é mais forte: quando José partiu uma perna, já lá vão uns anos, deixou de poder trabalhar a palma no chão, como sempre fazia, mas não sabia estar parado e vai daí inventou uma engenhoca a partir de uma tábua, que o permitia estar sentado e trabalhar ao mesmo tempo!
    Hoje, os anos já pesam muito e José e Margarida já quase não produzem as suas vassouras de palma, dizem-nos com um brilho de tristeza no olhar. Têm pena que assim seja, pois gostavam muito desta arte e de participar nas feiras, sobretudo pelo convívio, pelas pessoas que lá se conhecem e pelos momentos bem passados. “Foram muitos anos de feiras e há sempre histórias para contar”.
    Por curiosidade, Margarida lembra-nos uma história: para fazer um cesto diferente, pintara a palma, mas não gostou do resultado e por isso decidiu colocá-lo dentro do recipiente onde estava a tinta, ficando um cesto muito original. Estava convencida que ninguém o haveria de comprar, mas levou-o para a feira e qual não foi a sua surpresa quando uma senhora se encantou por ele e quis desde logo comprar.
    Com uma ternura contagiante, José e Margarida abrem-nos o coração e desfiam memórias da sua vida. Lamentam que a sua arte tenha cada vez menos seguidores e acham que é importante transmitir aos mais novos estes saberes de antigamente.

  • Laura Pereira e as artes dos trapos
    Laura Pereira

    Desta feita estivemos à conversa com Laura Pereira.

    Laura Pereira nasceu na era de 1936, em São Brás de Alportel, no sítio da Mesquita, na casa onde actualmente habita. Morou uns anos em Faro, onde exercia a profissão de costureira, contudo voltou para a terra que a viu nascer e crescer.
    Habilidosa, paciente, minuciosa e sobretudo curiosa são os adjectivos que melhor definem Laura Gonçalves Pereira. Desde pequena, gostava de desafios e arriscava sempre a fazer coisas novas. Começou muito pequenina a rasgar os lençóis da mãe para dar asas à imaginação e criar as suas bonecas de trapo.
    Hoje, não se fica apenas pelas bonecas: pinta porcelanas, tecido, vitrais, faz trabalhos com estanho, farinha e até papel vegetal. Tudo começou com uma brincadeira, como nos conta: quando a sua filha trouxe para casa um trabalho feito na escola e Laura quis provar a si mesma que também era capaz de o realizar. A partir daí, começou a arriscar em novos materiais e nunca mais parou. Desde há 3 anos a esta parte, dedica-se com mais afinco às suas artes, com inúmeros trabalhos, nas mais diversificadas técnicas e aplicações.
    Para aprender mais e estar sempre atenta às inovações artísticas, nos seus tempos livres, compra revistas relacionadas com arte e propõe continuamente desafios a si mesma. Pode gabar-se de ter aprendido tudo sozinha, porque só teve formação para aprender a pintar telas e vitrais. Tudo o mais nasce da sua curiosidade, quando vê algo que lhe desperta a atenção e não desiste enquanto não é capaz de o reproduzir, sozinha, pelas suas mãos. Um misto de perfeccionismo, paciência e persistência ajudam a explicar a sua arte “vou experimentando até ficar perfeito”.
    Não tem por hábito expor os seus trabalhos, apenas participou numa feira em Faro e no final de Julho apresentou, pela primeira vez, o seu talento, na Feira da Serra, mas pela forma amável e pronta como nos recebeu em sua casa, podemos constatar que faz gosto que vejam os seus trabalhos e quem sabe, no futuro, poderá vir a revelar o seu trabalho em novos eventos.

  • As artes de Maria Francisca
    Maria Francisca

    Este mês fomos ao encontro de Maria Francisca Martins, para descobrir a tradição da empreita de palma, que toma forma nas suas mãos e descobrir os segredos das saborosas pinhas.

    Artes de Maria FranciscaMaria Francisca Cavaco Madeira Martins nasceu em 1944 e vive em São Brás de Alportel há já 42 anos, pelo que se sente uma legítima filha desta terra.
    Nada melhor para definir esta artesã do que as suas mãos… em constante movimento, sempre em busca de algo para fazer e para criar. As mãos de Maria Francisca falam da sua vida: do seu trabalho durante vários anos na fábrica de bolos e da paixão que descobriu desde cedo, nas artes da empreita e das deliciosas pinhas.
    Duas paixões que se completam e das quais jamais se consegue apartar.
    Estes ofícios fazem parte da sua vida desde sempre. Tradição herdada da família, eram inicialmente uma forma de ocupar os seus tempos livres e hoje constituem o seu trabalho. Leva a sua arte a diversas feiras de artesanato e é uma presença assídua nas Feiras da Serra, em Tavira e em São Brás de Alportel e no Mercado de Faro, no terceiro domingo de cada mês.
    O contacto com o público permite-lhe conhecer o carinho das pessoas pelo seu trabalho, o que muito a satisfaz; e sente que é apenas pela crise económica que o país vai atravessando que não se vende mais. Recorda com um sorriso uma história que aconteceu na Feira da Serra, em S. Brás, quando uma senhora a abordou, perguntando se era possível consertar a sua mala. Ao ver que não tinha arranjo, Maria Francisca prontificou-se para fazer uma semelhante e o resultado foi que a visitante gostou tanto da sua nova mala de empreita que logo de seguida comprou mais 5…
    Como qualquer outro ofício tradicional, trabalhar a empreita de palma e confeccionar as tão típicas pinhas são misteres que exigem muita dedicação, engenho e arte. É preciso preparar os materiais e acompanhar todo um vasto processo.
    Deixamos aqui alguns segredos e truques, que connosco partilhou Maria Francisca: Ao fazer a empreita: a palma verde é apanhada no campo, enquanto que a branca pode ser comprada. Inicialmente, é preciso molhar a palma, depois cortar e só depois iniciar o trabalho entrelaçando as folhas e fazendo a bonita “tamisa”.
    E se quisermos que as folhas de palma fiquem com coloração, temos que colocar água com vinagre a ferver. Depois de ferver, adiciona-se a água à tinta que pretendemos. Depois de estar tingida, retira-se a palma, lava-se e coloca-se ao sol para secar!
    Para fazer as tão deliciosas pinhas, é preciso juntar açúcar e amendoins ou amêndoas, conforme o gosto e depois colocar ao fogo. Para ajudar a caramelizar, podemos colocar um acido próprio, adquirido nas farmácias, ou limão. Depois coloca-se o preparado numa pedra mármore e com um rolo é preciso esticar e por fim cortar… Mãos à obra!

  • Vitória Azinheira e a saborosa arte dos figos cheios
    figos cheios

    Os saborosos figos cheios são um dos doces típicos da região mais apreciados. Para conhecer mais sobre esta saborosa tradição, estivemos à conversa com Vitória Azinheira, no sítio do Peral.
    Vitória Maria do Carmo Azinheira nasceu em 1943, no sítio do Peral, onde reside até hoje, e onde nos abriu as portas da sua casa, para desvendar a sua arte.
    Os figos cheios fazem parte da vida de Vitória, desde cedo, ainda menina. Uma tradição de família, que já ensinou à nora e à sobrinha, para desta forma manter viva esta arte tradicional, que desde sempre a cativou.
    Os figos cheios são sobretudo uma forma de ocupar os tempos livres, mas são também um dos produtos regionais que Vitória vende no Mercado Semanal de São Brás de Alportel, nas manhãs de sábado. Os seus figos podem também ser apreciados na Feira da Serra Verão, onde Vitória participa desde há alguns anos, e noutros certames que se realizam na região.
    Vitória vende os seus figos cheios há já mais de 30 anos, com uma clientela fiel, que ultrapassa as fronteiras do concelho, pois até do estrangeiro recebe encomendas.
    Após apanhar os figos, é necessário colocá-los a secar. Posteriormente são lavados e enxugados ao sol, ficando prontos a confeccionar. A sua preparação inicia-se fazendo um corte no figo, por onde se enche com os miolos de amêndoa e com uma mistura preparada, previamente, de açúcar, canela e erva-doce. Bem cheios, vão ao forno a torrar. Vitória utiliza sempre o seu forno de lenha, que dá ao preparado um sabor especial.
    Os figos cheios podem também apresentar-se em forma de estrela, o que lhes dá uma aparência ainda mais bonita e apetitosa. Uma delícia!

  • O esparto nas mãos de João Florêncio
    João Florêncio

    Desta feita, partimos rumo aos segredos das fibras vegetais para dar a conhecer uma misteriosa matéria-prima que é uma riqueza do nosso legado cultural: o esparto, à conversa com João Florêncio.
    João Florêncio Nunes Barros nasceu e cresceu no concelho de São Brás de Alportel. Passou a meninice no sítio do Peral e depois de casar mudou-se para o Desbarato, onde vive até hoje. Foi ainda no Peral que viu nascer o seu dom para trabalhar o esparto, ofício parecido à empreita de palma, mas que devido às características deste material, oferece muitas dificuldades ao trabalho do artesão.
    Quando era menino, o tempo era outro, como nos conta… sem tapetes ou sacos de compra, todos sabiam fazer empreita, de palma ou esparto, para confecionar uma mão cheia de artigos que ajudavam às tarefas de casa e que eram igualmente imprescindíveis na lida do campo, facilitando o transporte e o acarreto das mercadorias. João Florêncio recorda a sua infância e os dias de escola, já lã vão tantas eras e explica-nos que, muito antes das mochilas que conhecemos, utilizavam-se pastas, feitas a partir de umas calças velhas dos pais.
    Ao longo de gerações, estes saberes e fazeres tradicionais passavam de pais para filhos, como aconteceu com João Florêncio, que tendo aprendido dos seus pais os segredos da empreita de esparto, esforçou-se para ensinar às filhas e aos netos, mas confessa que é difícil hoje manter esta tradição.
    Hoje, o esparto ocupa-lhe o tempo e as ideias. Mais do que uma herança de tradição, é uma verdadeira paixão, que o consome, sempre com novas criações. Mostrou-nos então um sem fim de coisas que concebe a partir do esparto, num trabalho de engenho e arte que se orgulha de apresentar. Alcofas, chapéus, botas e até mesmo gravatas ou soutiens em esparto… tudo lhe sai das mãos calejadas de uma vida cheia de histórias por contar. Os mais recentes trabalhos incluem até cabeças de animais…
    Embora cansado deste trabalho duro que lhe deixa as mãos dormentes e um pouco triste, pois vende-se cada vez menos este tipo de artigos, João Florêncio acede de pronto aos nossos desafios para demonstrar como se faz a empreita de esparto e as suas mãos não mais pararam, num frenesim constante, com que entretém os seus dias. Marcamos encontro na próxima Feira da Serra de São Brás onde integra o Encontro de Ofícios!
    Mas como se faz a empreita de esparto?
    Todo o processo da empreita de esparto é muito trabalhoso. Inicialmente, é necessário apanhar o esparto e isso implica, como nos contou, “chegar a casa com a camisa quase sempre rasgada e com muitos bicos nas mãos”. Segue-se uma criteriosa escolha, que envolve tempo e paciência e depois o processo de criação de cada artigo que deixa as mãos dormentes, dado que o esparto é um material muito duro e difícil de manusear. Muito perfeccionista, João Florêncio gosta de ver a empreita muito bem feita e apertadinha, lutando contra as dores que o esparto lhe deixa nas mãos. Entre conversas, deixou-nos ainda alguns truques e segredos: nunca se pode cortar o esparto, mas apenas puxar e para trabalhar o esparto usam-se 3,5, 9 e até 13 ramais!

  • Artur Brás Marcos e o mundo maravilhoso do mel
    Artur Marcos

    Desta feita, fomos à descoberta das tradições da apicultura, no mundo maravilhoso do mel, e estivemos à conversa com Artur Brás Marcos.
    Numa definição simples, poderíamos dizer que a apicultura é a atividade de criar abelhas, para a produção do mel e da cera, mas na verdade é muito mais do que isso… Mister de origens ancestrais que une o Homem à Natureza, este é um ofício que carece de muito trabalho e dedicação e que só pode ser feito “com paciência e gosto”. Para ser apicultor, como nos diz Artur Marcos, “não basta saber fazer mel”, é imprescindível dominar um conjunto de conhecimentos sobre a fauna e a flora: conhecer as abelhas, a geografia, os territórios, as épocas do ano, os tratamentos… Ao longo do ano, várias são as fases da apicultura: em Fevereiro, é tempo de criações e lá para o mês de Junho, é altura de tirar o mel.
    Artur Marcos ainda recorda a primeira vez que teve contacto com o mundo do mel, pela mão do avô, com quem aprendeu a admirar as abelhas e desenvolveu esta verdadeira paixão, que revela no olhar, enquanto nos fala sobre os mistérios da apicultura. A arte do mel é uma tradição de família, que teme poder vir a perder-se, qual joia valiosa que quer preservar da voraz passagem do tempo.
    Mais do que uma atividade com que ocupa todos os seus tempos livres, o mel é um verdadeiro “bichinho”, que não o deixa parar de produzir, um género de “desporto avançado”, como gosta de dizer.
    Mas hoje, quando o setor atravessa sérias dificuldades, para se ser apicultor é necessário muito investimento e é preciso estar sempre atualizado. Artur rende-se à inovação, adota novos materiais e investe em novos mecanismos, numa ânsia contínua de melhorar o seu trabalho. Entre uma panóplia de ferramentas: apiários, fumigadores, espanadores, apanhadores de zangões, alimentadores, formões,… desvenda-nos segredos desta arte que como nenhum outra sabe colher da natureza o mais doce dos seus sabores.
    Artur Marcos gosta de apresentar o seu trabalho e estar mais perto dos apreciadores do seu mel; é uma presença assídua nas Feiras da Serra e outros certames do género.
    Apicultor de alma e coração, não se cansa de repetir que não faz o mel, mas apenas ajuda as abelhas, porque estas sim são “as grandes mestras da natureza”.

  • Damásio e a paixão da madeira
    Damásio Rodrigues

    Seguimos a nossa rota por artes e ofícios tradicionais. Na quinta etapa do nosso percurso fomos ao encontro de Damásio Rodrigues, que que abriu as portas da sua oficina, onde guarda a sua grande paixão…. Madeira!
    Damásio Martins Ramos Rodrigues nasceu em 1949, já lá vão mais de seis décadas e muito embora tenha nascido em Santo Estêvão, no concelho de Tavira, é em São Brás que se lembra de passar toda a sua vida.
    Profundamente marcado pela guerra colonial, Damásio Rodrigues encontrou na sua profissão de marceneiro, a forma de entreter os pensamentos e o meio de sustento. Confessa-nos que os tempos de crise que o país atravessa não favorecem o negócio, mas não é por isso que deixa de continuar a trabalhar, dia após dia, no ofício que escolheu para lhe preencher os dias. Fabrica cadeiras, cadeirões, mesas, armários e toda uma diversidade de pequenos artigos, que têm uma mãe comum: a madeira. A madeira, que é uma verdadeira paixão para Damásio, transmitida de geração em geração, como um tesouro de família. Já o seu bisavô fazia cadeiras de tabua nos seus tempos livres…
    O ofício é uma tradição de família, uma vez que o seu bisavô, o seu avô e o seu pai, já tinham por hábito fazer cadeiras de tabua para ocupar os tempos livres. Para Damásio, mais do que um passatempo, a arte de fazer cadeiras foi o ganha-pão de toda uma vida e a sua grande paixão.
    Afirma, com convição, que adora a sua profissão, gosta de estar distraído a trabalhar a madeira e explica-nos que só este imenso gosto explica os investimentos que tem feito no ofício, para apetrechar a sua oficina da ferramenta necessária, para continuar as suas criações.
    Mais difícil é transmitir, aos mais novos, esta arte… “Não há quem queira aprender estes ofícios nos dias de hoje”… Mas Damásio conta-nos, orgulhoso, que a filha de tanto o ver trabalhar, já conseguiu aplicar a sabedoria transmitida pelo pai: jogou mãos à obra, aproveitou os materiais da oficina e aplicou-os na sua casa!
    Apesar dos inúmeros convites para mostrar a sua arte, explica-nos que não é dado a exibições públicas, sente-se melhor no seu “cantinho”, onde pode trabalhar como gosta, libertar-se de todos os seus problemas e dar asas à criatividade que toma forma na madeira.

  • José dos Reis, entre as artes da madeira
    José dos Reis

    Seguimos a nossa rota por artes e ofícios tradicionais. Na quarta etapa do nosso percurso fomos ao encontro de José dos Reis, que guarda um dos ofícios em extinção: o fabrico de cabos de foice.
    José dos Reis nasceu no ano de 1940, já lá vão mais de 70 Primaveras. Natural de Martinlongo, viveu vários anos na freguesia de Cachopo, mas já se considera totalmente são-brasense pois reside por cá há mais de 4 décadas!
    Carpinteiro de profissão, a madeira faz parte da sua vida. Nas suas mãos, já nasceram muitos milhares de cabos de foice, caixas e paletes de madeira, ripas para cortiça…
    Esta arte tradicional foi herdada do pai e de um tio que lhe incutiram o gosto pelos trabalhos em madeira. Inicialmente, dedicava-se ao fabrico de cabos de foice para vender aos ferreiros. Eram outros os tempos, quando as vastas searas do Alentejo se ceifavam com foice, no labor do campo. Chegou a vender perto de 50 mil cabos de foice por ano, mas a evolução da tecnologia foi trocando a foice por modernas máquinas e hoje esta arte é sobretudo uma recordação do passado e mais uma forma de “preencher a vida de um reformado”, porque como nos explica, não se imagina a ficar parado num banco de jardim a ver os dias passar. O trabalho dá-lhe ânimo e motivação e na nossa visita pudemos verificar que muito embora já não se dedique à feitura de cabos, faz bastantes paletes de madeira, que são prova viva do seu dinamismo.
    Na Feira da Serra de São Brás de Alportel já participou nalgumas edições, no Encontro de Ofícios, onde demonstrou ao vivo a sua arte e gosta de sentir a curiosidade das pessoas. Numa das edições da Feira, um repórter da TVI interessou-se pelo seu trabalho e acabou por fazer uma reportagem, visitando a sua oficina.
    Como se faz:
    O fabrico dos cabos de foice é uma tarefa demorada: primeiro, há que adquirir a madeira adequada, tirar-lhe a casca (pelar) e corta-la, com serrote, para deixar pequenas marcas que delimitam o comprimento dos cabos. Depois, leva-se a madeira à serra de fita e corta-se pelas marcas. É preciso então abrir com uma maceta e talhadeira para fazer o cabo e levar a outra máquina para fazer o tamanho da catana do cabo. Posteriormente, o cabo é “falcado” para tomar a posição de redondo. É preciso ainda limpar com faca de recorte e, por último, fazer-se um pequeno furo no torno para colocar a foice.

  • Elisiário Vaz, a história de um sapateiro
    Elisiário Vaz

    Continuamos a nossa viagem à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais, para dar a conhecer este valioso tesouro cultural. Na terceira etapa do nosso percurso fomos ao encontro do sapateiro Elisiário Vaz que abriu a sua casa para nos desvendar a história de um sapateiro, plena de memórias, de solas e meias solas…

    Elisiário António Vaz nasceu na era de 1935, no concelho de Almodôvar, no lugar de Corte Figueira Mendonça, mas vive no concelho de São Brás Alportel já lã vão mais de 30 anos.
    O ofício de sapateiro surgiu por brincadeira, como ainda recorda, mas certo é que desde há já quase 60 anos é do conserto dos sapatos que Elisiário faz a sua vida.
    Tudo começou, ainda em Almodôvar, quando um senhor lhe ensinou esta arte. Depois, Elisiário foi para a tropa, onde trabalhava 10 horas por dia na sua profissão; e terminada a carreira militar, veio para Loulé aperfeiçoar a sua técnica e aprender a trabalhar em calçado fino. É a partir de então que inicia a sua carreira, trabalhando por conta própria.
    Como tantos outros, também Elisiário quis tentar a sua sorte no estrangeiro: emigrou para a Suíça e para a França, regressando 17 anos depois ao seu país natal e ao ofício de sapateiro.
    É pelo amor ao que faz, e porque são muitos os que continuam a procurar o seu trabalho, que Elisiário continua a dedicar o seu tempo às artes do calçado, lutando contra muitas dificuldades… Não esconde a tristeza ao ver que o seu ofício está em vias de extinção “Os sapateiros têm morrido à fome” e por essa razão nunca quis que o seu filho lhe seguisse os passos. Segundo nos explica, hoje o negócio apenas dá para quem se dedica em exclusivo a colocar capas e não para os trabalhos difíceis e demorados que não compensam, mas que Elisiário continua a fazer, muitos dos quais “já ninguém quer fazer”. Também é por isso que um dos seus clientes, dono de uma loja, só aceita alguns serviços, pela confiança que tem nas mãos do Sr. Elisiário, onde pode descansar, pois sabe que tudo fica perfeito. O segredo, como acabou por nos confessar é fazer muitos trabalhos à mão, para que fiquem mais fortes e perfeitos… “Irrepreensíveis!”
    Ser sapateiro é uma profissão que exige perfeccionismo, perícia e paciência e talvez por isso, nos dias de hoje, são cada vez menos aqueles que se atrevem por este ofício.
    Para demonstrar o seu talento, Elisiário participa anualmente na Feira da Serra, em São Brás, e na Festa da Espiga, em Salir; onde é sempre alvo de muita curiosidade e gosta de sentir o interesse das pessoas pelo seu trabalho!
    Na sua oficina, entre a ferramenta, são muitos os pares de sapatos que se vão amontoando, “abandonados” pelos seus donos… São os duros ossos do ofício, que Elisiário lamenta, pois perdeu tempo e dinheiro…

  • José Guerreiro e a paciente arte da miniatura
    miniatura carroça

    Continuamos a nossa viagem à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais, para dar a conhecer este valioso tesouro cultural. Na segunda etapa do nosso percurso fomos ao encontro da paciente arte de trabalhar a madeira, e estivemos à conversa com José Guerreiro, um artesão que dedica os seus tempos livres a fazer nascer da madeira bonitas carroças, em miniatura.
    José Guerreiro nasceu no ano de 1955 e vive em São Romão. Tal como São José, também este José é carpinteiro de profissão. É com a madeira que passa os seus dias de trabalho e desde há alguns anos, é também com a madeira que passa os seus tempos livres, noite após noite, construindo minuciosamente as suas pequenas grandes obras de arte: miniaturas de carroças, num trabalho paciente e meticuloso.
    Ao contrário do que acontece com muitos outros artesãos e produtores, José Guerreiro não encontrou na família a tradição deste ofício. Na verdade, descobriu a arte de fabricar carrinhos de madeira, na sua profissão de carpinteiro, aprendendo-a com o seu patrão, numa época em que havia menos trabalho. Ao longo do tempo, foi aperfeiçoando a técnica e aprimorando o engenho e hoje constrói carrinhos de madeira, de todos os tamanhos e feitios, atrevendo-se ainda a produzir outros artigos em miniatura. Cada um destes pequenos artigos pode conter muitas dezenas de pequenas peças… A perfeição e o pormenor exigem por isso muitas horas de dedicação, que não têm outra recompensa senão o imenso gosto pelo que faz e o prazer de sentir que as suas obras merecem o carinho das pessoas.
    José Guerreiro tem participado nalgumas feiras de artesanato, não podendo aceder a muitos convites, dado que tem a sua profissão e só pode dedicar-se à sua arte, nos tempos livres. Mas mesmo em casa, diz-nos, recebe frequentemente a visita de quem procura as suas miniaturas, referindo como o satisfaz sentir que as pessoas gostam do seu trabalho.

  • Custódio Cavaco e a redescoberta da empreita
    empreita

    Damos início à nossa viagem à descoberta das artes e dos ofícios tradicionais, para dar a conhecer este valioso tesouro cultural. Na primeira etapa do nosso percurso fomos ao encontro da empreita, uma das mais significativa expressões artesanais da região e estivemos à conversa com Custódio Cavaco.
    A empreita é uma verdadeira paixão na vida de Custódio Cavaco, um filho do concelho de São Brás, como gosta de dizer. Todas as noites, dedica os seus tempos livres a esta antiga arte, que é uma espécie de “herança de família”, uma vez que sempre esteve presente na sua casa, desde criança. Nos seus tempos de menino trabalhar a empreita de palma tinha como fim colmatar algumas necessidades da labuta diária, como a falta de utensílios para transportar as mercadorias. Assim se fabricavam ao serão as alcofas, os quintais, os capachos, as esteiras e os abanos, que haviam de ser companheiros de trabalho, de sol a sol.
    Há meia dúzia de anos, Custódio Cavaco redescobriu esta arte e passou a fazer da empreita a companhia preferida para os seus tempos livres, sobretudo após a aposentação. Presença assídua nas feiras de artesanato do município, tem cada vez mais procura para os seus artigos e lamenta não ter tempo para produzir mais e poder assim participar em mais eventos deste género, onde se sente motivado, por sentir que as pessoas gostam do que faz.
    O amor pelo que faz e o perfeccionismo com que executa todos os seus trabalhos são as razões que aponta para explicar o porquê de tanta procura pelos seus produtos.
    A empreita, assim chamada por em tempos ter sido paga de acordo com a quantidade produzida ao dia, é característica da zona do barrocal, onde a palma, uma espécie de palmeira anã, cresce no mato. O processo de fabrico começa com a apanha das folhas de palma, no início do Verão. Depois, é necessário molhar a palma para que esta possa ser trabalhada e segue-se então todo um trabalho que passa por cortar e entrelaçar as folhas de palma, fazer a “tamisa”, coser e com muita paciência e habilidade, dar forma a bonitos artigos que Custódio sabe reinventar, adaptando esta antiga arte de outrora aos novos tempos.